Caminhos Incomuns

Quando participei do trabalho Entrada, Saída e Labirintos conheci alguns profissionais que eu tive mais ligação que outros. Como a Alessandra, o Átila, o Cristian, o Uelinton e o próprio Luis André que eram bailarinos da Cia de Dança De Caxias do Sul. Todos eu comecei a convidar para minhas confraternizações e atividades da vida e três deles a desenvolver um pouco mais a dança ou trabalhar profissionalmente.

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Quando participei do trabalho Entrada, Saída e Labirintos conheci alguns profissionais que eu tive mais ligação que outros. Como a Alessandra, o Átila, o Cristian, o Uelinton e o próprio Luis André que eram bailarinos da Cia de Dança De Caxias do Sul. Todos eu comecei a convidar para minhas confraternizações e atividades da vida e três deles a desenvolver um pouco mais a dança ou trabalhar profissionalmente.

Cristian falou que estava escrevendo um projeto de dança com a metodologia do Danceability que na época não tinha experiência e que se aprovasse gostaria que eu estivesse nos ensaios e na montagem do espetáculo em Bento Gonçalves. Para outras pessoas com deficiência ele faria uma audição. Aceitei na hora, mesmo tendo todo deslocamento nos finais de semana, talvez algumas noites e feriados para cidade.

Comecei participando de umas oficinas extras para preparação corporal com profissionais do Brasil e um do Canadá. Fui apresentada ao restante do elenco para o espetáculo Caminhos Incomuns e a equipe fora do palco.

Depois ele foi atrás da captação de verbas e eu ajudei nos contatos que possuía nas empresas. Não conseguimos o valor total, mas o trabalho aconteceu com a condição que tínhamos. Para audição além dos contatos do Cristian convidei um aluno da associação L’aqua que tinha dançado no Entrada, Saída e Labirintos e uma cadeirante que não tinha muito contato. Essa moça já desistiu da ideia quando disse que nem sempre iria para Bento de carro porque preferia a tranquilidade do ônibus (descansar, ler, estudar durante o trajeto) e ao mesmo tempo teríamos o empecilho da falta de acessibilidade (escadas para acesso ao interior do ônibus). Apesar de não achar legal a falta de acessibilidade nunca deixei de fazer nada em função desta dificuldade e além de não me estressar no transito uma das paradas desta linha era duas quadras do local de ensaio. Para mim este trajeto não era comprido e se precisasse ajuda os integrantes do grupo ou este outro colega deficiente ajudava. Eu chego nos locais sem estrutura e peço ajuda para qualquer pessoa quando necessário. Ela não gostou deste desta forma e desistiu do convite.

O Luis Carlos aceitou ir para audição e nas condições que sugeri. Ele foi aprovado e começamos a viajar para Bento todo final de semana. As vezes chegávamos com tempo na Casa das Artes e esperávamos no parque em frente ou dentro do estabelecimento quando já aberto. Ele se tornou uma pessoa muito dependente de mim achando que deveria ser a agenda dele também e passar todos os comunicados para ele. Ficando com a responsabilidade para mim. Comecei a ensinar que ele também tinha esse compromisso e que qualquer dúvida era para conversar com o Cristian ou a equipe. Não sempre comigo. Era demorado na troca de roupas de passeio e ensaio. Quando ia de carro as vezes oferecia ajuda nos gastos com a gasolina e as vezes não. Também ensinei que seria bom dividir os gastos, mesmo sabendo que ele tem uma condição mais precária que a minha. Tentando ajudar na independência dele.

Ele se empolgava em fazer novas atividades, mas não tinha atitude em executar. Foram vários meses de idas e vindas. Culminou em três apresentações no teatro da Casa das Artes. Montagem do espetáculo e preparação corporal. Junto com o aprendizado profissional e pessoal. Aprender a conviver com novas pessoas, pensamentos, atitudes, características, etc.

Os ensaios foram feitos com objetivo da preparação corporal, exploração da metodologia do Danceability (contato e improviso), teatro e a montagem coreográfica. Foi sendo montado as etapas e depois unificado num trabalho de 30 a 40 minutos. O Edson e o Cristian pensaram no figurino, cenário e iluminação. Usamos tênis, calça jeans lycra azul ou vermelha, blusa listrada vermelha com o objetivo de compor uma ideia similar para todos. Como cenário três caixas móveis de madeira e rodinhas embaixo para deslocamento e diversos tamanhos onde escalávamos ela dançando e/ou interpretando, cadeira de rodas, muletas, órteses. A iluminação foi criada pensando na história a ser dançada e que compusesse a combinação de cores com o cenário e o todo. A composição musical foi toda criada para o espetáculo e adaptada conforme eram criadas as cenas.

Na primeira cena todo grupo entrava caminhando em diversos caminhos e formas de locomoção (eu no chão). A Renata e eu nos encontrávamos no meio do palco, ela descia na minha altura, interpretava minha locomoção, nos posicionávamos no palco e os demais também foram para o chão onde fizemos uma coreografia juntos. Saímos do palco e entravamos em dupla fazendo movimentos de contato. Depois entrava as caixas e começava as caminhadas sincronizadas e corridas por trás do cenário. Cada um na sua vez subia nas caixas e fazia seu solo e sua fala. Renata e Fernanda dançavam com próteses e eu passava analisando as duas. Na minha vez de subir nas caixas interpretava a dificuldade em escalar. Antes de mim era o Luiz Carlos, para tomar meu espaço empurrava ele rampa abaixo, fazia minha fala e depois conduzia com o braço o grupo que estava no chão fazendo a suas coreografias, descia pela rampa. A Fernanda entrava no palco e dançava balé com uma órtese, logo em seguida eu entrava na cadeira e fazia meu solo no chão e na cadeira de rodas. Finalizávamos o espetáculo.

Depois destas apresentações dentro deste edital o resultado foi maravilhoso e recebemos outros convites. Apresentação em Marau, UCS Farroupilha, Bento e o gostinho de quero mais. Em Marau e Farroupilha aconteceram duas situações cômicas e tristes ao mesmo tempo. Em Marau teve temporal durante a apresentação e o teatro ficou sem luz e por falta de manutenção ou preocupação em evoluir nunca instalaram um gerador. Em Farroupilha também pela questão do descaso com a cultura o piso do palco não tinha manutenção e umas felpas estavam soltas, em um dos momentos da dança essas tiras entraram nas costas de uma bailarina. Ela sendo profissional aguentou até o fim, mas depois foi necessário ir ao plantão para retirada e pontos. Uma questão que levanto aqui para que o poder público e a sociedade pensem mais na cultura, educação e também o esporte. Um povo com todos esses quesitos sendo desenvolvidos não serão manipulados.




Roberta Spader

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